terça-feira, 21 de abril de 2020

O Silêncio

Quarentena dia X.

Talvez o ponto alto do dia tenha sido assistir um filme série B no Netflix: The Silence (O Silêncio, em português). Trailer bonitinho, filme ordinário.

Ironias à parte o filme traz uma perspectiva interessante (Aviso de Spoiler!).

A protagonista com surdez adquirida após um acidente de carro se comunica como nunca. Tímida, apaixonada e prestes a entrar na faculdade. Tornou sua família exímia em viver no silêncio e todos superaram a adversidade com louvor.

Como todo filme apocalíptico não se pode esperar muito do enredo, mas um assertivo foco na surdez da personagem trouxe a esta família um diferencial na sobrevivência em meio ao caos.

A frase clichê de "Os Últimos Serão Os Primeiros" traz reflexão espiritual e intelectual sobre os opostos que insistem em nos definir como seres humanos.

Somos bons ou maus. Saudáveis ou doentes. Negros ou Brancos. Heteros ou Gays. Gordos ou magros. Deficientes ou não-deficientes.

E o meio em que vivemos parece definir quem somos. Ou pelo menos nos ajuda a estabelecer quem está apto ou não a sobreviver. É o Darwinismo em ação.

Ser bom, saudável, branco, hetero e magro parece ser o conjunto de ingredientes necessários a sobreviver no mundo de hoje, mas esquecemos que o ambiente também nos torna mais fortes ou mais fracos a depender da época, ocasião, oportunidade e 'timing'.

Quem diria, por exemplo, que os portadores de traços falciformes seriam mais resistentes à malária? Que uma pitada de negativismo e maldade poderia, segundo Jung, trazer mais bem-estar e equilíbrio à mente humana? Que o excesso de magreza alimentaria mentes anoréxicas e bulímicas?

Com Darwin e Deus sentados à mesma mesa percebo que a vida busca, no fim das contas, o equilíbrio.

A natureza, como sempre sábia, engrandece a quem sabe o momento certo.

Porque não calar-se quando apenas precisa escutar e observar 🙊
Porque não cegar-se quando apenas precisas falar e escutar. 🙈
Porque não ensurdecer quando apenas precisas observar e refletir. 🙉



segunda-feira, 20 de abril de 2020

Ensaio Sobre a Quarentena

O que é uma quarentena afinal? 

Ficar em casa dormindo, comendo, arrumando a casa. Não parece ser a pior das idéias. 

Estes dias eu mesmo falei para minha Mãe (sim, com letra maiúscula) que Ela deve ser uma heroína, pois têm passado "de quarentena" um bom bocado da vida nos últimos anos.

Quando passo os dias confinado neste meu mundinho aparentemente sem graça, eu me pergunto o que estou fazendo para mudar o mundo no dia de hoje. Como posso fazer a diferença se estou trancafiado em casa?.

Assisti ontem a um curto vídeo de Monja Coen. Ela argumentava que o ato de não fazer nada, de simplesmente ficar em casa neste momento, talvez seja o melhor gesto a se fazer ao meu próximo.

Em tempos de "achatar a curva" da pandemia de coronavírus esse parece ser, de fato, o pensamento mais coerente. 

Mas não consigo me aquietar. Sinto-me inútil. Médico de mãos atadas. Chego a me questionar como posso estar sendo tão inútil com tantos precisando dos meus serviços. 

Porque sofro com a ociosidade neste momento? Porque tão inerte, porque tão estressado?

Com horários desregrados nas últimas semanas tenho acordado como Deus quer. Hoje às 15h, ontem às 13h, amanhã sabe-se lá.

Uma pilha de roupas que já me aguardava há alguns dias esperava pra ser passada e enfrentei o desafio. Ufa, foram 11 camisas. Parece que atravessei o canal da Mancha. Homens como sempre dramáticos.

Ao encerrar o árduo trabalho ainda arranco um belo bife do meu indicador com a tábua de passar roupas. Sangrando e sentindo como se um martelo apunhalasse a ponta do meu dedo com vigor, não pude deixar de pensar na famosa dor do parto. Como pode ser pior que isso?

Estresse parcialmente aliviado pela dor.

A nostalgia veio com força nas horas subsequentes. Com uma breve conversa com minha prima, que atualmente cursa o 1o ano de medicina, resgatei da memória o que vivi há 21 anos atrás. Para ser exato em 1999.

Quando dei por mim a aconselhava sobre coisas que gostaria de ter ouvido naquela época. Sobre ter paciência, tranquilidade, disciplina e organização. Variáveis que até hoje tenho dificuldade de dominar.

E não é que no fim das contas me senti, ao fim do dia, realmente útil? Acalmar a ansiedade do próximo, no caso de minha prima, futura médica, me fez repensar que, de alguma forma, podemos ser úteis mesmo ficando em casa. 

Sábia Monja Cohen.

domingo, 19 de abril de 2020

Medicina e Ócio: O que Esperar da Saúde no Período Pós-Pandemia?

Aos olhos leigos parece quase impossível pensar em um médico, em plena pandemia, que possa estar se sentindo parado, inerte, sem motivos para se excitar com o caos apocalíptico que nos cerca.

Mas a real situação da maioria dos médicos não é essa.

Ainda que a falta de médicos pareça assolar o país, e que uma fábrica de médicos pareça a solução para a tragédia iminente (como assim pensaram os que criaram o "Mais Médicos" há poucos anos atrás), lamento informar que a situação passa longe disso.

A maioria de nós atualmente se encontra confinada em casa, sem pacientes a atender, grande parte autônomos e, obviamente, sem renda.

Não bastasse as muitas baixas de remuneração médica sofridas nos últimos 20-30 anos a verdade é que o desemprego dos médicos está batendo à porta. Nunca foi tão fácil passar um plantão, e nunca tão difícil assumir um.

Parece irreal pensar como um país que está à beira do colapso da saúde pode estar com médicos que estão lutando para continuar trabalhando.

Deixe-me explicar um pouco mais a fundo.

Ao contrário do que muitos pensam, a grande parte dos médicos não vive à sombra de cargos públicos, e se criou uma dependência quase que patológica da saúde privada aos famosos exames de check-up, procedimentos estéticos e afins não-emergenciais.

E digo isso em nome das muitas especialidades que neste setor rodeiam, como ginecologistas, radiologistas, clínicos gerais, dermatologistas, e muitas outras especialidades clínico-cirúrgicas.

Que dirá então dos que se iludiram com a belíssima e almejada medicina estética, atualmente saturada de profissionais que sequer fizeram residência médica e se tornaram escravos de empresas que exploram o setor.

Soma-se à conta catastrófica o aumento inescrupuloso de escolas médicas que despejam aos milhares jovens médicos com formação incompleta e/ou inadequada.

Toda essa bomba está agora a explodir. Médicos e mais médicos (isso pra não citar outras áreas da saúde), agora se encontram presos aos planos de saúde, laboratórios e empresas da área que são verdadeiras máquinas de fazer dinheiro.

Muitos inclusive trabalhando por menos que dignos cortes de cabelos em periferias das grandes metrópoles.

E muitos de nós não esperavam que a conta fosse cair aos nossos pés. Pelo menos não tão cedo.

Na atual epidemia de coronavírus, vê-se uma grande guinada do setor de saúde em direção oposta à medicina "check-up", estética e preventiva.

O importante agora, afinal, é "salvar vidas", que é de fato de onde o dinheiro vai minar nos vindouros meses de 2020.

Se a coisa já não estava sendo fácil agora então azedou.

Conheço médicos que estão há semanas sem trabalho, com filhos fora da escola em "home-schooling", com contas e mais contas a pagar. Ociosos só que não (#SQN). Atarefados até o pescoço com afazeres domésticos.

Como esta conta irá fechar nos bolsos dos médicos nestes próximos 12 meses ainda é difícil saber. No melhor resumo: quem não trabalha, não ganha.

Estamos com a inteligência artificial batendo a nossa porta, com excesso de profissionais desqualificados (ou qualificados demais?), escravos de empresas farmacêuticas, sem vínculos efetivamente trabalhistas com hospitais privados, reféns de laboratórios de renome, e ainda sem planos de carreira consolidados.

Será o fim da medicina como a conhecemos hoje?

E outra pergunta ainda fica sem resposta. Ao menos por enquanto. Afinal, o que esperar da saúde no período pós-pandemia?