segunda-feira, 20 de abril de 2020

Ensaio Sobre a Quarentena

O que é uma quarentena afinal? 

Ficar em casa dormindo, comendo, arrumando a casa. Não parece ser a pior das idéias. 

Estes dias eu mesmo falei para minha Mãe (sim, com letra maiúscula) que Ela deve ser uma heroína, pois têm passado "de quarentena" um bom bocado da vida nos últimos anos.

Quando passo os dias confinado neste meu mundinho aparentemente sem graça, eu me pergunto o que estou fazendo para mudar o mundo no dia de hoje. Como posso fazer a diferença se estou trancafiado em casa?.

Assisti ontem a um curto vídeo de Monja Coen. Ela argumentava que o ato de não fazer nada, de simplesmente ficar em casa neste momento, talvez seja o melhor gesto a se fazer ao meu próximo.

Em tempos de "achatar a curva" da pandemia de coronavírus esse parece ser, de fato, o pensamento mais coerente. 

Mas não consigo me aquietar. Sinto-me inútil. Médico de mãos atadas. Chego a me questionar como posso estar sendo tão inútil com tantos precisando dos meus serviços. 

Porque sofro com a ociosidade neste momento? Porque tão inerte, porque tão estressado?

Com horários desregrados nas últimas semanas tenho acordado como Deus quer. Hoje às 15h, ontem às 13h, amanhã sabe-se lá.

Uma pilha de roupas que já me aguardava há alguns dias esperava pra ser passada e enfrentei o desafio. Ufa, foram 11 camisas. Parece que atravessei o canal da Mancha. Homens como sempre dramáticos.

Ao encerrar o árduo trabalho ainda arranco um belo bife do meu indicador com a tábua de passar roupas. Sangrando e sentindo como se um martelo apunhalasse a ponta do meu dedo com vigor, não pude deixar de pensar na famosa dor do parto. Como pode ser pior que isso?

Estresse parcialmente aliviado pela dor.

A nostalgia veio com força nas horas subsequentes. Com uma breve conversa com minha prima, que atualmente cursa o 1o ano de medicina, resgatei da memória o que vivi há 21 anos atrás. Para ser exato em 1999.

Quando dei por mim a aconselhava sobre coisas que gostaria de ter ouvido naquela época. Sobre ter paciência, tranquilidade, disciplina e organização. Variáveis que até hoje tenho dificuldade de dominar.

E não é que no fim das contas me senti, ao fim do dia, realmente útil? Acalmar a ansiedade do próximo, no caso de minha prima, futura médica, me fez repensar que, de alguma forma, podemos ser úteis mesmo ficando em casa. 

Sábia Monja Cohen.

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